Autor: Ki.mComentário: Nu
Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa...
Uma qualquer pessoa que a recebesse num jeito de tão sonâmbulo gosto como se um grão de luz lhe percorresse com um dedo tímido o oval do rosto. Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse e em silêncio dissesse: é para si. E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse, e sem sorrir, sorrisse, e sem tremer, tremesse, tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto como se um grão de luz lhe percorresse com um dedo tímido o oval do rosto. Na minha mão estendida dar-lhe-ia o gesto de a estender, e uma qualquer pessoa entenderia sem precisar de entender. Se eu fosse o cego que acena com a mão à beira do passeio, esperaria em sossego, sem receio. Se eu fosse a pobre criatura que estende a mão na rua à caridade, aguardaria, sem amargura, que por ali passasse a bondade. Se eu fosse o operário que não ganha o bastante para viver, lutava pelo aumento do salário e havia de vencer. Mas eu não sou o cego, nem o pobre, nem o operário a quem não chega a féria. Eu sou doutra miséria. A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede. A minha mão estendida e tímida, não pede. Dá. Esta é a maior miséria que no mundo há. E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa! E se ela agora viesse? Se ela aparecesse aqui, agora, de repente, se brotasse do chão, do tecto, das paredes, se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente, toda lantejoulada de esperanças como fazem as fadas nos contos das crianças? Ai, se ela agora viesse! Se ela agora viesse, bebê-la ia de um trago, sorvê-la-ia num hausto, sequiosamente, tumultuosamente, numa secura aflita, numa avidez sedenta, sofregamente, como o ar se precipita quando o espaço vazio se lhe apresenta.
António Gedeão

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